Um passageiro alegando ter o status “Black Signature” foi personagem de uma confusão em um voo da LATAM recentemente e acabou por viralizar nas redes sociais, reacendendo o debate sobre a importância da etiqueta a bordo.
O episódio, entretanto, vai além de uma discussão sobre status, espaço para bagagem ou qualquer direito especial que deva ser invocado pelo simples status ligado a determinada companhia aérea. O caso reacende um debate cada vez mais importante: o respeito. O respeito a determinadas condutas a bordo, à tripulação e aos limites dos benefícios oferecidos aos clientes frequentes.
O caso “Black Signature”
Status em programas de fidelidade pode garantir alguns benefícios interessantes aos viajantes frequentes de determinadas companhias areias. Prioridade em etapas desde o check in até o embarque, maior conforto e até um tratamento diferenciado em vários momentos da viagem. Entretanto, a bordo, nenhuma categoria coloca um passageiro acima das regras de etiquete e segurança ou dos direitos dos demais viajantes.
O episódio que ficou popularmente conhecido como “Black Signature” em referencia ao status oferecido pela LATAM a determinados clientes ganhou destaque no cenário nacional. A relevância do episódio não se deu apenas por conta dos vídeos e memes da internet.
Ele ocorre em um momento no qual o Brasil registra crescimento expressivo dos casos de indisciplina na aviação. Além disso, novas regras da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) que entram em vigor em setembro merecem atenção especial dos viajantes.
No domingo, 9 de agosto, durante o embarque de um voo da LATAM em Curitiba aconteceu uma cena inusitada. Segundo relatos divulgados em diversos portais de notícias e de aviação, um passageiro embarcou tardiamente no voo quando os compartimentos superiores próximos ao seu assento já estavam ocupados. Havia uma mulher sentada em seu lugar por engano, o que foi rapidamente resolvido com correção do equivoco por conta da mulher.
Em seguida, a situação tomou outros rumos e qualquer resquício do que diz a etiqueta a bordo se perdeu completamente, pois como os compartimentos superiores próximos ao assento estavam ocupados com malas, mesmo solucionando a questão do assento, não haveria espaço para a bagagem do passageiro em questão. Ele então tomou a liberdade e passou a retirar malas e pertences de outros passageiros para colocar a sua. A tripulação abordou o passageiro indicando que ele não poderia ter aquela atitude. Foi então que o ocorrido evoluiu para uma discussão envolvendo a bagagem de outros viajantes e a tripulação. Iniciaram-se brigas, discussões e uma confusão.
Vídeos do episódio que ganharam repercussão nas redes sociais mostram momentos da discussão, em determinado momento o passageiro referiu que era cliente “Black Signature”, categoria mais elevada do programa LATAM Pass. Houve necessidade de intervenção da Polícia Federal para retirada do passageiro em questão. A confusão gerou atrasos e transtornos para todos os passageiros embarcados e que não tinham nada a ver com a confusão.
No episódio a frase “sou Black Signature” acabou se tornando o elemento de maior repercussão do episódio. Afinal, ela trouxe para a discussão algo bastante conhecido por quem acompanha programas de fidelidade: até onde chegam os limites dos benefícios de uma categoria elite e muitos os usam em detrimento de qualquer etiqueta a bordo.
O que significa ser Black Signature no LATAM Pass
A Black Signature ocupa atualmente o topo das categorias elite do LATAM Pass. Portanto, não se trata apenas de uma identificação simbólica para passageiros frequentes.
Entre os benefícios divulgados pela própria LATAM estão embarque prioritário, check-in premium, bagagem adicional, seleção de assentos e acesso a lounges. Clientes elegíveis também contam com upgrade de cabine e serviços adicionais durante a viagem.
Além disso, a companhia oferece assento LATAM+, ainda há alguns serviços diferenciados em aeroportos, incluindo transfer até a aeronave em Congonhas e Guarulhos.
São, de fato, benefícios relevantes, que fazem parte da estratégia das companhias para reconhecer seus passageiros mais frequentes.
Porém, nenhum deles permite desobedecer às orientações da tripulação ou interferir na bagagem de outros passageiros. Tampouco garantem que o espaço desejado no compartimento superior estará disponível em qualquer circunstância, mesmo com a possibilidade de escolha de assentos preferenciais LATAM+.
Quando status deixa de ser benefício e vira “carteirada”
Programas de fidelidade foram desenvolvidos justamente para diferenciar clientes. Quanto maior a frequência de viagens e o relacionamento com a companhia, melhores costumam ser os benefícios.
Nunca houve tantas formas de diferenciar passageiros. Existem categorias elite, cartões premium, filas prioritárias, lounges, assentos preferenciais e diferentes franquias de bagagem. Tudo isso faz parte do negócio da aviação e pode tornar a experiência de passageiros frequentes consideravelmente melhor. Dessa forma, tornou-se comum encontrar dezenas de passageiros com algum tipo de prioridade em um mesmo voo.
Essa lógica funciona bem quando aplicada aos serviços previstos pelo programa. O problema começa quando o passageiro interpreta esse reconhecimento comercial como uma espécie de hierarquia dentro da cabine.
O tratamento diferenciado de qualquer companhia, a bordo ou em terra, termina exatamente onde começam as regras coletivas e o que manda a etiqueta de viagem. Ser Black Signature, Black, Platinum ou possuir qualquer cartão premium não concede autoridade sobre a tripulação, muito menos sobre outros passageiros.
É a regra fundamental da aviação. Quando uma orientação envolve segurança ou organização da cabine, cabe à tripulação determinar como a situação será resolvida.
Casos de indisciplina cresceram no Brasil
O episódio também acontece em um momento particularmente importante para a aviação brasileira.
Dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) mostram um avanço significativo dos registros de falta de etiqueta e indisciplina a bordo. Foram 1.019 ocorrências em 2023 e 1.061 em 2024. Em 2025, entretanto, o número saltou para 1.764 casos, o que corresponde a um crescimento de aproximadamente 73% em apenas dois anos.
Raul de Souza, diretor de Segurança de Voo e Operações da Abear, afirmou que “esse rigor maior tem como objetivo garantir a segurança dos voos”, já que a indisciplina “além de prejudicar as operações aéreas, é uma ameaça à segurança”.
Diante desse cenário, a ANAC aprovou a Resolução nº 800, com regras específicas para o tratamento de passageiros indisciplinados. O artigo 12 já está em vigor desde 13 de abril de 2026; os demais dispositivos passam a valer em 14 de setembro.
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Entre as condutas consideradas indisciplina estão causar tumulto, intimidar outros passageiros e recusar uma instrução de segurança dada pela tripulação. Nos casos graves ou gravíssimos, a ANAC pode aplicar multa de R$ 17.500 ao passageiro. Condutas gravíssimas, como violência contra a tripulação ou tentativa de acesso à cabine, podem resultar em suspensão do transporte aéreo por 6 ou 12 meses.
Além disso, a suspensão vale para todas as companhias, não apenas para aquela em que ocorreu o episódio. As empresas são obrigadas a compartilhar entre si os dados do passageiro suspenso.
Etiqueta a bordo ganha importância em voos
Não é preciso chegar ao extremo de uma intervenção policial para transformar um voo em uma experiência desagradável. Na maioria das vezes, os conflitos começam em situações bem mais simples: uma mala no lugar errado, um assento reclinado bruscamente, um passageiro falando alto.
Uma pesquisa da Expedia, conduzida pela GfK com passageiros nos Estados Unidos, ajuda a dimensionar esses incômodos. Chutar repetidamente o assento da frente apareceu como o comportamento mais irritante, citado por 64% dos participantes. Pais que não prestam atenção ao comportamento dos filhos ficaram em segundo lugar, com 59%. Já a higiene pessoal inadequada ou perfumes fortes incomodaram 55% dos entrevistados.
Embora o levantamento seja norte-americano e tenha sido publicado há quase 10 anos, boa parte desses conflitos continua familiar para quem viaja de avião hoje, inclusive no Brasil. Afinal, uma cabine é um ambiente especialmente propício a atritos: pouco espaço, mobilidade limitada e dezenas ou centenas de pessoas dividindo o mesmo ambiente por horas.
Por isso, a etiqueta e o bom-senso a bordo faz toda diferença e podem contribuir para o bem-estar de todos – passageiros e tripulação.
Atitudes que ajudam a evitar conflitos
Embarque: respeite o seu grupo
Se a companhia organiza o embarque por grupos, aguarde o momento correspondente ao seu cartão. Passageiros com prioridade devem naturalmente utilizar o benefício, mas tentar furar filas ou embarcar em outro grupo só aumenta a confusão no portão. Chegar no horário certo também reduz a chance de ter que despachar sua bagagem no portão de embarque.
Bagagem de mão: o bagageiro é um espaço compartilhado
O compartimento superior não funciona como extensão exclusiva do assento. Sempre que possível, guarde a mala conforme a orientação da companhia; mochilas e itens menores podem precisar ficar sob o assento dianteiro (esse talvez seja uma das atitudes onde mais vemos o desrespeito). Evite retirar ou movimentar pertences de desconhecidos sem autorização, foi justamente esse gesto que transformou o caso da LATAM em confusão. Se não houver espaço perto do seu lugar, procure um comissário: a tripulação pode indicar outro compartimento ou determinar o despacho da bagagem.
Assento reclinável: o direito existe, mas a cortesia também
Se o assento reclina, o passageiro pode naturalmente usar essa função. Ainda assim, olhar para trás antes de movimentar o encosto evita situações desagradáveis, e reclinar aos poucos dá tempo para quem está atrás reorganizar a mesinha. Durante refeições ou serviço de bordo, manter o encosto na vertical costuma ser a alternativa mais cordial.
Apoio de braço: atenção especial a quem está no meio
Existe uma regra implícita bastante difundida entre viajantes: o passageiro do meio fica com os dois apoios centrais. A lógica é simples. Quem está na janela ganha a vista e um apoio lateral da aeronave. Quem está no corredor tem mais facilidade para se levantar e tem o apoio do braço do corredor. Já quem ocupa o meio tem poucas vantagens. Não existe regulamentação sobre isso, mas como regra de convivência, ela ajuda bastante.
Crianças a bordo: planejamento ajuda todos
Viajar com crianças pequenas exige alguma preparação adicional. Brinquedos, entretenimento offline, fones adequados e lanches ajudam durante a viagem, assim como escolher horários de voo que respeitem a rotina da família. Por outro lado, os demais passageiros também precisam ter expectativas razoáveis: bebês choram, e crianças pequenas nem sempre conseguem ficar imóveis por horas. Existe uma diferença importante entre uma situação inevitável e a falta de atenção dos responsáveis.
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Fones de ouvido deveriam ser regra
Celulares e tablets transformaram o entretenimento a bordo, mas também criaram uma nova fonte de incômodo. Vídeos, jogos e músicas no alto-falante obrigam toda a cabine a participar do entretenimento de um só passageiro. Use fones. A regra vale igualmente para crianças e adultos.
Em caso de problema, chame a tripulação
Esse talvez seja o princípio mais importante de todos. Não encontrou espaço para a mala? Chame um comissário. Outro passageiro está ocupando seu assento? Chame um comissário. Existe uma discussão sobre reclinação, bagagem ou espaço? Novamente, procure a tripulação.
Tentar resolver o problema sozinho, como mostrou o caso do voo da LATAM, pode transformar uma situação banal em confronto.
Já presenciou alguma situação inusitada e de desrespeito aos direitos dos outros passageiros? Conta para nós!
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