As salas VIP nunca estiveram tão cheias e, ao que tudo indica, a etiqueta dos passageiros frequentadores deste espaço não tem sido um ponto de destaque. Vivemos a era dos cartões premium, programas de acesso a salas VIP, como Priority Pass, LoungeKey e DragonPass, o que transformou os lounges em um benefício mais acessível. Porém, cenas cada vez mais comuns, como mesas ocupadas por malas, louça abandonada e chamadas no viva-voz mostram que conforto compartilhado também exige alguns cuidados.
Salas VIP nem tão VIPs assim
A cena já se tornou familiar nos grandes aeroportos. O passageiro chega à sala VIP esperando encontrar tranquilidade antes do voo. Entretanto, encontra fila na entrada, mesas disputadas, buffet movimentado e poucas tomadas disponíveis.
Em alguns horários, o antigo refúgio dentro do aeroporto se parece cada vez mais com uma extensão do terminal. A diferença é que há alguma comida, bebida, Wi-Fi e, com alguma sorte, um lugar confortável para sentar.
Parte dessa transformação tem uma explicação bastante simples. O acesso às salas VIP deixou de ser uma exclusividade de passageiros da primeira classe, executiva ou clientes com status elevado e com isso, a regras de etiqueta em espaços comunitários se perderam.
Hoje, cartões de crédito competem em um mercado onde o acesso a cartões de alta renda ficou facilitado e alguns benefícios passaram a funcionar como estratégias para captação de clientes. Esses cartões oferecem acessos entre os seus benefícios por diferentes programas. Entre eles estão Priority Pass, LoungeKey, DragonPass e Visa Airport Companion. Além disso, alguns bancos mantêm espaços próprios ou parcerias diretas com lounges para valorizar o seu cliente.
O problema é que assim como o universo das milhas cresceu, a quantidade de usuários viajantes também cresceu. E o fenômeno aconteceu muito mais rapidamente do que alguns desses espaços puderam comportar.
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Cartões premium transformaram os acessos às salas VIP
A expansão dos programas de fidelidade ajuda a dimensionar esse fenômeno no Brasil. Segundo dados da ABEMF, os brasileiros acumularam 270,5 bilhões de pontos e milhas apenas no terceiro trimestre do ano de 2025. O volume representa crescimento de 15,1% em relação ao mesmo período de 2024. Além disso, as empresas do setor faturaram R$ 6,59 bilhões no trimestre, alta anual de 18,3%
Outro levantamento mostra como os programas de relacionamento entraram definitivamente na rotina dos brasileiros. Somente no ano de 2025, 88,3% das pessoas entrevistadas por uma pesquisa da ABEMF de comportamento indicaram que participam de pelo menos um programa de fidelidade.
Ao mesmo tempo, bancos, cooperativas e fintechs passaram a disputar o viajante de maior renda. Pontos, cashback, seguros e salas VIP estão entre as principais ferramentas utilizadas nessa batalha, onde o comportamento e a etiqueta dos viajantes seja nos lounges ou aviões ganha destaque. Portanto, nunca houve tanta facilidade para entrar em um lounge sem necessariamente voar em uma cabine premium.
Lotação das salas VIP já aparece nos números
A percepção de que as salas estão mais cheias não fica restrita aos relatos dos passageiros. Algumas estimativas baseadas em dados do uso de programas como DragonPass revelam que o uso da plataforma nos aeroportos brasileiros tem crescido ao longo dos últimos anos. Por exemplo, somente no Carnaval do ano passado, houve um crescimento de aproximadamente 35,9% frente ao ano anterior de 2024.
Essa é uma tendência que é vista no Brasil e no mundo. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da J.D. Power U.S. Airport Lounge Benchmark, no final do ano passado, mostrou que o lounge passou a influenciar até a escolha da viagem. Entre os clientes de salas VIP entrevistados, 47% disseram considerar seu lounge preferido ao definir a rota. Além disso, 82% afirmaram que a disponibilidade do benefício influencia a escolha da companhia aérea.
Isso ajuda a explicar por que um benefício antes periférico ganhou tanta importância na estratégia dos emissores de cartões. Porém, quanto mais gente recebe acesso às salas VIP, maior fica a pressão sobre uma infraestrutura que não consegue crescer na mesma velocidade, evidenciando ainda mais a necessidade de regras de etiqueta, ou o bom e velho, bom-senso!
Bancos a limitar acessos às Salas VIP
A consequência dos elevados custos de manutenção dos benefícios e falta de exclusividade tem sido aparente nas mudanças promovidas pelos próprios brancos emissores.
Nos Estados Unidos, cartões como o Capital One Venture X e o Amex Platinum passaram a restringir convidados gratuitos e a impor regras mais rígidas para o uso dos seus lounges próprios. Essas mudanças recentes mostram uma tentativa de redução do número de pessoas acessando os lounges e tentativa de proporcionar uma experiência mais exclusivas aos clientes.
No Brasil, o movimento é parecido. Cartões que antes davam acessos ilimitados às salas VIP hoje trabalham com um número fixo de entradas gratuitas por ano. Outros emissores, como o Genial, Porto Bank, que anteriormente ofertavam diversos acessos reduziram ou reorganizaram os benefícios de sala VIP nos cartões Black e Infinite.
Entre custos elevados para manutenção do benefício de acesso às salas VIP, perda de exclusividade e desrespeito às regras de etiqueta por muitos consumidores, as mudanças mostram uma tendência clara. O acesso ao lounge continua importante para vender cartões premium, mas o custo da popularização do benefício começou a aparecer.
Lotação e comportamento do viajante
Mais gente dentro das salas não precisaria significar uma experiência pior. Porém, alguns comportamentos acabam amplificados quando dezenas ou centenas de passageiros precisam dividir o mesmo ambiente.
Relatos recentes publicados pelo blog americano View From the Wind mostraram cenas absurdas: mesas cobertas por pratos usados, restos de comida e copos abandonados. Também apareceram passageiros colocando os pés sobre poltronas e móveis. Isso é uma amostra do que diariamente os frequentadores de salas VIP observam e apontam como uma total falta de etiqueta e respeito ao espaço comunitário.
Outras reclamações recorrentes envolvem ligações no viva-voz, vídeos reproduzidos sem fones e ocupação de assentos com malas. Há ainda quem transforme sofás em camas improvisadas.
Estamos diante do fenômeno da popularização e do mau comportamento. O cartão premium pode até oferecer e abrir portas para uma experiência mais exclusiva. Pode garantir o acesso a um buffer, Wi-Fi e até a uma espumante cara. No entanto, a educação nem sempre aparece na lista dos benefícios.
Por este motivo, eu resolvi destacar uma lista de regras de etiquetas para nossos leitores usuários de salas VIP. Mais do que etiqueta ou regras, são pequenas atitudes que contribuem para o bem-estar de todos usuários.
Atitudes e regras de etiqueta para você refletir quando acessa salas VIP
Recolha sua louça ao terminar
Se houver balcão, bandeja ou carrinho para devolução, utilize-o. Caso a sala conte com serviço de recolhimento, ao menos deixe pratos e copos organizados. Em uma sala lotada, uma mesa coberta de louça usada deixa de atender rapidamente o próximo passageiro.
Buffet não é estoque para o voo
Sirva aquilo que pretende consumir dentro da sala. Encher bolsas e mochilas com alimentos pode contrariar as regras do lounge e prejudicar a reposição. Naturalmente, espaços que oferecem produtos grab and go são outra história. Nesse caso, levar o alimento faz parte da proposta.
Use fones de ouvido
Dentre todas as regras de etiqueta e convívio em salas VIP, essa é uma das mais importantes! Vídeos, músicas e chamadas no viva-voz incomodam especialmente em espaços fechados. Portanto, utilize fones sempre que consumir conteúdo com áudio. Para ligações longas, procure cabines telefônicas ou áreas reservadas, quando disponíveis.
Mala não precisa de poltrona
Uma cadeira vazia ocupada por uma mochila pode representar outro passageiro esperando em pé. Sempre que a sala estiver cheia, mantenha a bagagem junto aos seus pés ou nos espaços apropriados.
Respeite a fila do buffet
A regra parece óbvia, mas horários de pico transformam cafeterias e buffets em pontos bastante movimentados. Espere sua vez e evite bloquear corredores enquanto decide o que vai consumir.
Não monopolize os chuveiros
Algumas salas oferecem duchas e, em determinados horários, existe fila para utilizá-las. Nesse cenário, um banho rápido resolve o necessário sem comprometer a experiência dos demais passageiros.
Compartilhe tomadas e espaços de trabalho
Trabalhar dentro do lounge é uma das grandes vantagens desse tipo de ambiente. Porém, ocupar uma mesa inteira com equipamentos quando há passageiros procurando lugar não ajuda. Da mesma forma, evite monopolizar várias tomadas sem necessidade.
Crianças continuam precisando de supervisão
Uma área infantil não transforma toda a sala em playground. Além disso, corredores próximos ao buffet costumam ter alimentos quentes, louças e passageiros carregando bebidas. A supervisão dos responsáveis continua essencial.
Conheça a regra do seu acompanhant
Políticas de convidados mudam frequentemente. Por isso, confira as condições do cartão antes de chegar à recepção com familiares ou amigos. Isso evita discussões na entrada e, principalmente, cobranças inesperadas.
Lembre-se de que você também faz parte da lotação
Talvez seja o ponto mais importante. Em salas VIP compartilhadas por centenas de passageiros e diferentes programas, ninguém é mais “dono” do espaço por ter determinado cartão e as regras de etiqueta devem ser respeitadas. Use o lounge pelo tempo necessário e respeite quem também pretende aproveitar o benefício.
Tecnologia vem ganhando espaço
Se a demanda aumentou, algumas empresas começaram a utilizar a tecnologia para administrar melhor a entrada.
A American Express, por exemplo, disponibiliza lista de espera digital para seus Centurion Lounges nos Estados Unidos. Quando a sala está cheia, o passageiro pode entrar na fila pelo aplicativo e receber uma notificação quando chegar sua vez.
Posteriormente, a empresa passou a apresentar também estimativas do tempo de espera em seu aplicativo de viagens.
Essas ferramentas não resolvem a falta de espaço. Entretanto, evitam que dezenas de pessoas precisem permanecer fisicamente agrupadas diante da recepção.
Vale a pena continuar acessando salas VIP?
Na minha opinião, sim. Sempre que tenho um voo, por uma questão de organização procuro chegar com certa antecedência. Com isso, o uso das salas VIP passa a ser parte da rotina, nem que seja para tomar um café ou água. O que talvez tenha mudado um pouco na experiência é a expectativa do que encontrar.
Uma sala VIP, por exemplo, continua oferecendo algumas vantagens interessantes. Banheiros mais reservado, alimentação, bebidas, Wi-Fi, tomadas e um assento confortável para períodos maiores de espera.
Por outro lado, entrar no lounge esperando encontrar necessariamente silêncio e exclusividade, atualmente, pode gerar frustração. Torna-se essencial uma pesquisa completa para visualizarmos alternativas disponíveis no aeroporto antes da viagem. Esta é uma estratégia que sempre procuro utilizar em minhas viagens.
Os acessos e a diversidade de programas podem ser usados ao seu favor. Ter acesso a diferentes redes pode ser mais interessante do que simplesmente acumular múltiplas entradas em um único programa. Além disso, vale conferir antecipadamente horários, regras de acesso, acompanhantes e limites de permanência.
Algumas salas restringem entradas durante períodos de maior movimento justamente por limitações de capacidade.
Etiqueta continua sendo o melhor benefício nas salas VIP
A popularização das salas VIP é positiva. Afinal, mais passageiros passaram a usufruir de uma experiência que durante décadas esteve reservada a poucos viajantes. O problema não está necessariamente na democratização do acesso. Está na dificuldade de adaptar infraestrutura, benefícios e comportamento a essa nova realidade.
Bancos podem limitar convidados. Lounges podem criar filas digitais. Aeroportos podem abrir novos espaços. Ainda assim, nenhuma dessas soluções substitui algumas regras simples de convivência.
No fim, a etiqueta das salas VIP não deveria ser muito diferente daquela aplicada em qualquer espaço compartilhado. Use o ambiente como se fosse seu, mas nunca esqueça que ele também pertence ao passageiro sentado ao lado.
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